6 de março de 2012

Entrevista: Violator


Os Thrash maniacs do Violator lançaram em 2010 o seu segundo álbum "Annihilation Process" e desde então se apresentaram em dois grandes festivais nordestinos (Abril pro Rock em Recife e Festival Dosol em Natal). Também estiveram em turnê com os americanos do DRI.

Este ano está mais corrido ainda para os defensores do underground do Violator, com shows marcados pela América do Sul e Europa, além da gravação do novo CD.

Pedro Poney, vocalista e baixista da banda respondeu a entrevista abaixo e falou sobre temas polêmicos como "o dia do Metal nacional", além de relembrar as últimas passagens do Violator pelo o Nordeste!


Renato Batista - Valeu Pedro pela entrevista. Primeiramente, O Violator tem a filosofia DIY (Do it yourself). Você poderia explicar o que seria para quem ainda não a conhece?

Pedro Poney –  O “do-it-yourself” ou “faça-você-mesmo” é uma espécie de ética que guia uma parte da produção de música barulhenta desde os anos 60, e que virou uma espécie de lema a partir do surgimento do punk rock. Bem, fazer-você-mesmo significa promover autonomia de ação e de criação, é uma tentativa de dar um basta nessa vida de espectador e de apatia que nos adestraram e tentar tomar um pouco a rédea das coisas.  Falando assim, acho que fica claro que pra mim o DIY é algo a ser levado para todos os aspectos da minha vida, não apenas nas bandas que eu toco.
Bem, em termos práticos, no Violator, isso significa que nós mesmos somos responsáveis por todos os processos da banda, desde composição a agendar turnês fora do país. E que não estamos interessados em ter agentes, grandes gravadoras ou quem quer que seja fazendo as coisas por grana e transformando a banda em produto.  Claro que isso dá um trabalho danado e existem algumas desvantagens desse processo (a demora que eu levei pra responder essa entrevista se deve em parte a isso – peço desculpas publicamente).

Renato Batista - Falando no Metal Nacional. Tempos atrás rolou uma discussão sobre o dia do Metal nacional proposto para ser no dia 13 de Novembro por Thiago Bianch (Shamam e Karma), onde depois disso houve manifestações e milhares de assinaturas para esse dia ser aprovado perante a lei como realmente a data do Metal nacional. Você soube disso? Você acha que isso acrescentaria algo para a cena nacional?

Pedro Poney – Soube sim. Acho que é complicado falar em “cena do Metal nacional” justamente porque isso engloba uma série de manifestações tão diferentes que simplesmente não podem ser agrupadas. Metal Nacional pode ser tanto “power-metal-ruim-de-revista” quanto tiozinhos rabugentos que mal saem de casa e trocam tapes de gore-grind (eu tô pra me tornar um desses). Então, minha melhor resposta é que talvez pra cena que o Shaman faz parte isso  faça algum sentido, pro underground que o Violator participa essa discussão é totalmente inócua e sem sentido. Veja bem, o Edu Falaschi ficou puto da vida porque deu 300 pessoas no show dele,  bicho, se num show da gente dá 100 pessoas já estamos comemorando adoidado. São contextos muito diferentes e muito difíceis de comparar.  Sempre me perguntam sobre “as dificuldades de se fazer Metal no Brasil”. Claro que as coisas são precárias, a gente vive em um país lascado em que milhões de pessoas não tem nem o que comer direito. Eu é que não vou ficar reclamando de amplificador em show.  Eu não acho que falta apoio, que falta incentivo, que precisamos de mais empresas nos “apoiando” o “metal nacional”.  Foda-se isso. O underground é essa ralação mesmo e é divertido justamente por ser assim. Se a gente quer alguma mudança na cena que a gente participa somos nós que devemos fazer essas mudanças. Não tá rolando show? Organize um. Não tem banda legal? Monte uma. Não há um programa de rádio que toca música legal? Faça um. E por aí vai.


Renato Batista - A banda se apresentou em 2011 no Abril Pro rock, um dos maiores festivais do Brasil, ao lado de bandas como DRI e Misftis. Durante o festival você falou algo como “esta grade que nos separa (banda e público) não existe para nós, somos todos os mesmos, não há estrelismo entre nós”. Li em alguns lugares chamarem o Violator da banda que representa verdadeiramente o underground. Como você vê isso?

Pedro Poney – Essas coisas que eu falo nos shows são completamente sinceras, cara. A gente realmente abomina esse estrelismo e idolatria que muitas vezes a cena metal alimenta. Nós somos apenas mais uma banda, de quatro amigos que gostam de fazer barulho juntos. A gente é muito apaixonado pelo que cria, mas nunca nos sentiríamos melhores do que ninguém por causa disso. É triste saber que muitas bandas se sentem assim e gostam de promover uma verdadeira segregação entre banda e público, alimentando essa bobagem de “ídolos e fãs”, “ícones e deuses”, que realmente não deveriam ter lugar no underground.  Por outro lado, muitas vezes as pessoas acabam vendo nessa postura do Violator, mais um motivo pra criar alguma mística em cima da banda. O que a gente tá fazendo não é nada demais, é só um “Ei caras, somos só quatro (ex)moleques que gostam de ouvir som e ir em show que nem vocês”.

Renato Batista - Continuando a falar sobre o Abril. Você pode me falar do que se lembra daquela noite?

Pedro Poney – Foi uma noite de muitos shows bacanas e encontros com grandes amigos. Tive o prazer de ver mais uma vez (a quinta vez) o show de uma das melhores bandas da atualidade, o Facada, num show histórico com Ari e Danyel nas guitarras. Uma parede sonora de grindcore. Lembro que o Misfits foi uma bela decepção e o que o DRI realizou um dos meus sonhos adolescentes, como naqueles momentos que você mal pode acreditar. Ah, eu lembro também que eu tava bem sem voz, tinha que fazer mais dois shows no fim de semana e por isso não pude conversar muito com meus amigos de Fortaleza, Mossoró e de vários lugares do Nordeste e também não pude participar da festinha no quarto dos Facadas mais tarde. Bem, também me lembro que eu nunca vi um palco com tanto equipamento sinistro e um esquema tão chique de show, hotelzão, van, banheira e frutas no camarim. (risos)

Renato Batista - Falando nisso, o Violator fez ano passado uma turnê com uma de suas grandes influências, o DRI. Fale-me sobre a experiência dessa tour.

Pedro Poney – Pô, foi muito bacana poder viajar e conhecer as pessoas que formaram uma das bandas mais importantes na minha história de vida. Sensação parecida de quando viajamos com o Hirax para o Japão ou agora quando tocamos com o Whiplash no Chile. O mais legal é ver que os caras são pessoas super simples, que não nutrem nenhum tipo de arrogância e continuam bastante empolgados mesmo depois de 30 anos fazendo hardcore-thrash. É realmente inspirador.

Renato Batista – A banda voltou ao Nordeste no final do ano último ano para se apresentar no Festival Dosol, tocando ao lado de bandas como Krisiun e Sanctifier. Como foi esta volta à região e como foi o show naquela noite?

Pedro Poney –  Esse show foi incrível, um festival de stage dives, pessoas simplesmente voando sobre as outras. Teve um momento do show que eu simplesmente não aguentei larguei o baixo e me joguei também. Foi muito divertido. Sem contar nas bandas excelentes, Sanctifier, Antiskieumorra, Krisiun, Hillbilly Rawhide e nos nossos amigos do Conquest for Death que tocaram mais duas vezes com a gente, uma delas em um show que ajudei a organizar aqui em Brasília. Antes do show ainda deu pra tomar um banho de mar lá na “Praia dos Artistas” e depois fomos comer uma pizza sensacional antes de voltar pra casa e ter que ir pro trabalho. Bem, eu sempre falo isso e é bastante sincero, o Nordeste é o lugar mais legal pra se tocar no mundo. Os shows são animados, as pessoas são gente fina e ainda dá pra pegar uma praia. Que mais a gente pode querer nessa vida?


Renato Batista - Li no twitter de vocês que a banda gravaria um DVD em Taguatinga. Verdade? Como foi essa gravação?

Pedro Poney – Gravamos um DVD no “Kill Again Metal Fest”, que teve também o Farscape, Corpse Grinder, The Force e Black Skull, só banda sensacional e parceira. Tentamos fazer uma captação bem profissa e esse vídeo deve sair em algum momento desse ano, como parte das comemorações de 10 anos de banda. Foi um show bem simples, pequeno e underground. Simplicidade do jeito que a gente gosta.

Renato Batista - O Violator é uma banda que explora muitas cidades pela América do sul. Local não tão normal de se fazer uma turnê, normalmente as bandas vão para Europa, etc. Como os fãs latinos (além dos brasileiros) recebem a bandas nestes shows?

Pedro Poney – Cara, a recepção aqui na América Latina é muito intensa. Às vezes intensa até demais, com a molecada cercando van e batendo no vidro, a gente tendo que sair escoltado por uns seguranças (risos). Eu dou muito valor a essa nossa opção de ter tocado primeiro no nosso continente, lugar que sentimos uma real conexão – de origens, de histórias, de situações – antes de ter ido para a Europa. Tocar na Europa é muito legal também, em julho estamos indo de novo, mas é um sentimento bem diferente do que tocar na América do Sul.  Não só a paixão e a fúria aqui parece ser maior (talvez de tanta frustração acumulada – não sei), aqui a gente partilha de uma história, de muita dor e muita alegria, é diferente, difícil explicar. Desculpe se não fui muito claro.

Renato Batista - O violator fez um split com o a americana Hirax. De quem foi a ideia de unir as duas bandas no mesmo lançamento?

Pedro Poney – A ideia foi do Katon mesmo, depois que tocamos juntos no Japão. Criamos uma relação de amizade mesmo, depois daqueles dias em Osaka e como forma de celebrar essa nova parceria surgiu à ideia de um split. Como as duas bandas estavam às vésperas de lançar um novo material, pensamos em colocar uma música de cada futuro trabalho. Eu dei a ideia do nome e ele surgiu com aquela capa incrível. Legal demais ter um material lançado com uma banda que você escuta desde adolescente e já te inspirou muito.          

Renato Batista - A banda lançou em 2010 seu mais novo disco. Annihilation Process está dando boas críticas ao Violator. Esse sucesso com o disco já era algo esperado por você?

Pedro Poney – As críticas não foram tão boas assim, hein (risos). O que eu não acho que tenha sido algo necessariamente ruim, já que o Annihilation Process foi pensado para ser um trabalho mais agressivo e menos simpático que seu antecessor. De fato, o disco vendeu muito bem e ainda vende, uma raridade pros dias de hoje. A primeira prensagem acabou em uma semana, foi uma loucura. Mas sei lá, agradar ou não as pessoas não está nas nossas prioridades quando vamos fazer música. O mais importante é fazer alguma coisa que a gente acredita e fazer com que o Violator seja uma banda que caminhe da maneira que sempre quisemos ver as bandas que gostamos caminhar.

Renato Batista - Para você, qual a grande diferença entre o Chemical Assault (2006) e o Annihilation Process (2010)? A banda evoluiu dentre um disco e outro?

Pedro Poney – Como eu disse na pergunta anterior, o Annihilation Process  é um disco mais ríspido e menos carismático que o Chemical Assault. Eu sei que não muita gente gostaria de nos ver fazendo músicas mais lentas, de refrões fáceis e cantando sobre mosh, mas não era isso que a gente queria fazer. A gente sempre se encantou mais pelo lado mais descontrolado do thrash, como Dark Angel e Assassin e eu sempre me decepcionei com as bandas que começavam a amansar o som com o passar do tempo. Não é isso que a gente quer como banda. Então o EP é parte dessa linha que seguimos desde a primeira demo, sempre tentamos fazer um próximo material com mais violência que o anterior. Um dia a gente chega no Napalm Death (risos). Outro ponto que acho que vale comentário é que eu acho que o Annihilation Process traz um Violator bem mais maduro tematicamente. O conteúdo das letras reflete isso, mais explicitamente político, com textos e comentários em português, coisa que a gente nunca tinha feito antes. Aproveitamos o formato EP pra fazer um material curto e intenso, pra ser escutado de uma vez só. De repente, no próximo disco, com mais canções a gente pode trabalhar com diferentes abordagens dentro do thrash.


Renato Batista – Quais são os planos para o ano de 2012? Continuar a Turnê pelo Brasil? Fazer uma tour fora do país? Novo CD?

Pedro Poney –  Em 2012 temos um show na Bolívia e outro na Argentina no primeiro semestre, mas o foco é ensaiar feito condenados para a gravação do novo álbum que acontecerá em julho, na Alemanha. Será uma experiência inédita pra gente, que nunca gravamos fora de Taguatinga. Junto com a gravação faremos uma turnê de verão na Europa e a ideia é voltar com o disco na mão e fazer muitos shows pra comemorar os 10 anos de banda. Ah, também tem o DVD pela Kill Again, uma ideia de spit-dvd com o DER e até mesmo um documentário. Vamos ver o que a gente consegue fazer.

Renato Batista – Acontecerá em Abril o maior festival de Metal do Brasil, o Metal Open Air (M:O:A). Após o anúncio de que ele aconteceria no Nordeste e não no Sudeste, milhares de mensagens foram vinculadas na internet mostrando a indignação dos sulistas sobre a vinda do maior festival da história do gênero no país a região nordestina. O que você espera de um festival tão grandioso como este acontecendo fora do eixo Sul-Sudeste? 

Pedro Poney – Acho que é importantíssimo pesarmos um pouco a balança pro nosso lado (eu sou filho de cearenses). O preconceito contra nordestinos é uma realidade que está longe de acabar e, infelizmente, nossa cena não está blindada contra idéias estúpidas como essas. Fazer um festival desse porte na região Nordeste é interessante para quebrar um pouco essa falsa noção de centralidade que muitas pessoas que vivem no Sul/Sudeste possuem. É uma pena, mas muitas vezes as cenas desses estados se relacionam de maneira colonialista com as outras cenas do país. Muitas vezes não há um intercâmbio de fato, mas sim uma relação unilateral. O bom é saber que nem todo mundo pensa assim e consegue ver o underground para além de suas fronteiras regionais ou mesmo nacionais. Isso pra gente é o mais importante.
Sobre o festival em si, acho que vai se bem bacana, né? O Capaça e o Cambito já estão com as passagens compradas para assistir o show.

Renato Batista - Obrigado pela entrevista Pedro. Deixo o espaço para você falar diretamente com os Thrash maniacs do Nordeste!

Pedro Poney -  Eu que agradeço pelo espaço e pelas perguntas bacanas. Peço desculpas pelo atraso mais uma vez e espero que gostem do que leram, é tudo bem sincero. Obrigado a todo mundo que dá uma força ao Violator e as suas cenas locais. Cooperação e não competição. UFT!


Entrevista por Renato Batista

4 comentários:

james disse...

Cooperação e não competição. \,,/

Anônimo disse...

Muito bom, o cara é super simples, são pessoas assim que estão faltando na música.

JoaoMarcelo disse...

excelente entrevista, massa mermo!

JM,
Maceió-AL

Rodrigo disse...

Sinceridade e honestidade. É ISSO o que falta a muita banda por aí.

Parabéns ao Poney e ao Violator por essas qualidades que andam em baixa pra muita gente.

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