19 de julho de 2011

Entrevista: Cangaço


O cangaço deixou de ser uma promessa na cena nordestina e nacional para se tornar uma realidade rapidamente. Com sua proposta de juntar a rapidez do Metal com a regionalidade de gêneros nordestinos eles estão acumulados elogios e fãs pelo Nordeste e também pelo Brasil. A banda acumula apresentações em festivais como Abril pro Rock e FIG (Festival de inverno de Garanhuns), além de no ano passado ser a vencedora nacional do Metal Battle em São Paulo, batendo bandas como o Tierra Mystica do RS e Khrophus de SC. Ainda em 2009 a banda foi tocar no maior festival de Metal do Mundo, o Wacken, representando o Brasil. Onde também se apresentaram bandas como Iron Maiden e Slayer.

A seguir entrevista feita com o Baixista e vocalista Magno Lima, onde conta toda a trajetória do Cangaço, suas histórias e planos futuros.


Renato Batista - O som do Cangaço pode ser definido como Folk (por seu contexto folclórico). Há na Europa o Folk Celta e o Viking também que remetem ao local onde vivem e a musicalidade. Será que o Cangaço daqui a alguns anos poderá ser considerado “pai” de um novo gênero chamado Folk cangaceiro ou Folk Nordeste? Qual seria a reação de vocês se outras bandas tomassem a mesma linha do Cangaço?

Magno Lima -
Sentiríamos uma grande felicidade, pois teríamos a certeza de ter criado um estilo realmente original, o que é um dos nossos principais objetivos enquanto banda. Não nos incomodaríamos se nos tomassem como influência, pois, também fazemos isso com diversos artistas e é uma característica natural na arte, não a cópia, mas a mistura. O que o Cangaço busca no Metal o Alceu Valença explora no rock progressivo, o Fred Andrade no fusion, Hermeto Pascoal e Luciano Magno no jazz sem falar no primeiro maluco a evoluir e incrementar com diversos elementos a música local: Luiz Gonzaga.

Renato Batista - Uma vez um amigo falou “seria legal se o Cangaço se apresentasse com chapéu típico do Nordeste”. Como em outros gêneros onde a vestimenta ímpar é comum, ex: coletes. Vocês não pensaram em utilizar mais algum objeto além do uniforme nas apresentações que remetam ao cangaço? 

Magno Lima -
Sem dúvida o aspecto visual é responsável por grande parte da competência de uma banda de Metal, é um estilo muito enérgico e a garra deve estar presente no olhar de quem decida realizar esse tipo de arte. Para nós o mais importante é exatamente essa energia, traduzida em som e imagem no estilo que decidimos para nós, não queremos copiar o que diversas bandas de forró fizeram e ainda fazem nesse aspecto, tentamos ser originais também nesse quesito. Entretanto, nada impede que incorporemos novos elementos ao figurino contanto que não atrapalhe nossa performance, no caso do chapéu ainda não sabemos como bater cabeça sem derrubá-lo toda hora.

Renato Batista - A banda Terra prima usa do seu Power Metal com alguma influência de baião e maracatu, em uma faixa deles há a participação de Gilmar Bolla 8 do Nação Zumbi, nada mais coerente que trazer um integrante de uma banda que toca Maracatu para tocar Maracatu. O Cangaço pensa na ideia de ter a participação de algum especialista em algum gênero típico nordestino?

Magno Lima -
Certamente, participações enriquecem demais um trabalho musical, o que posso adiantar é que boas surpresas virão no próximo lançamento do Cangaço, com convidados mais do que especiais e importantes para nós.


Renato Batista - Talvez o som do Cangaço possa ser considerado new metal (não new metal aquele gênero de bandas como slipknot, mas sim por ser um Gênero novo, uma fusão de outros que faz algo novo, um novo metal). A banda já sofreu algum preconceito aqui no Brasil ou na Alemanha por pessoas que não aceitaram a mescla da banda?

Magno Lima -
Na realidade, onde mais enfrentamos preconceito com a nossa proposta foi aqui em Recife mesmo, nossa terra natal. O que o público em geral quer ver é exatamente algo diferente, doido mesmo, os vídeos na internet mais visualizados são a prova disso. Sempre fomos bem recebidos nos diversos lugares em que passamos e foi a diferença na nossa proposta artística e não a competência técnica e profissional o fator determinante para nossa vitória no Metal Battle Brasil 2010. Agradecido por considerar nosso estilo algo “New”. haha.

Renato Batista - O artista recifense Lula Cortês (que morreu neste ano) há algumas décadas começou a juntar o Rock n’ Roll com música nordestina. Ele é uma influência para o Cangaço?

Magno Lima -
Eu tive a honra de conhecer e tocar junto em alguns shows com o Lula Côrtes a alguns anos e posso dizer que a figura era de fato um multi-artista, pois compunha, tocava, cantava, era artista plástico e escritor de livros e poesias. Teve sua vida abreviada exatamente pelo estilo rockstar de ser, quem decida tocar rock ou qualquer dos derivados do estilo aqui em Pernambuco deve muito à ousadia dessa figura que infelizmente só deve começar e ser realmente valorizada postumamente como no caso do FIG desse ano, que dedicou uma noite do festival em homenagem ao artista, com diversos convidados tocando músicas de toda sua carreira e a exibição de um vídeo no telão mostrando quadros imagens de sua última apresentação, foi um momento realmente emocionante. Mas, outros como Alceu Valença e Zé Ramalho, também fizeram essa mistura de forma belíssima; no passado, mais rock do que regional, mas sempre com bom gosto e ousadia.

Renato Batista - A técnica nos instrumentos dos integrantes é evidente. Você e Rafael já tocaram no conservatório de música pernambucana além do Rafael cursar música na UFPE. Alguma influência pessoal no progressivo?

Magno Lima -
Sempre, grupos como A Cor do Som, Banda Black Rio, Ave Sangria foram exemplos de excelência no estilo progressivo. Na parte Metal podemos citar o Atheist, Annihilator, Death, Gojira entre outros. Na verdade progressivo é todo rock que foge da caretice e tenta fazer algo novo, arriscando.


Renato Batista - Cangaço pode ser considerado uma continuação do Vectrus? Pois você e Rafael tocaram juntos naquela banda. Se não, onde há diferenças?

Magno Lima -
No Carmetal 2009 foi o último show do Vectrus e isso foi dito no palco. A proposta mudou completamente e uma nova banda surgiu depois, coincidiu com a mudança de baterista na época, a saída de Laércio Silva para a entrada de Arthur Lira. As diferenças podem ser notadas nas gravações das duas bandas, a proposta regional foi aderida de fato e a banda abriu espaço para maiores influências de Death Metal. Eu e Rafael já tínhamos planejado essa mudança por 2 anos antes do ocorrido e se deu no momento certo.
 
Renato Batista - Por volta de seis meses de banda vocês já estavam tocando na Alemanha no maior festival de Metal do mundo. Também com direito a sair na Roadie Crew e no Jornal do Commércio, além de mídias pelo exterior. A que você dá o sucesso repentino do Cangaço?

Magno Lima -
Que não foi repentino, pois, como disse anteriormente, o planejamento durou mais de 2 anos. A banda ensaiando e se apresentando por 4 anos como Vectrus amadureceu bastante o seu som. Ensaiando sempre, mesmo sem shows marcados. Quando decidimos aparecer, foi de forma bastante consciente e direcionada para os objetivos que já tínhamos traçado anteriormente.

Renato Batista - Soube que a primeira Demo da banda foi gravada em casa, com péssimos microfones e etc. E justamente essa Demo foi a que os proporcionou competir no Metal Battle do W:O:A:. A banda tinha alguma noção que essa gravação caseira levaria o Cangaço primeiro a São Paulo e depois a Alemanha?

Magno Lima -
Não tínhamos a menor esperança de conseguir algo com aquela demo, apenas queríamos registrar músicas que já tinham bastante tempo e apresentar o nome da nova banda. Sinceramente falando, não foi com a gravação que conseguimos a vitória no Metal Battle Brasil, mas com a performance da banda ao vivo, que é o que os juízes avaliam de fato.


Renato Batista - Qual a sensação de ser até agora a única banda Pernambucana a ter a honra de tocar no Wacken, sabendo que bandas dos anos 80 e 90 ainda não conseguiram este feito e o Cangaço com poucos meses esteve lá?

Magno Lima -
Pergunta perigosa essa. Temos grande respeito e imensa admiração pela cena do Metal pernambucano dos anos 80 e 90, sabemos a evolução complicada do estilo, que passou por diversas fases e enfrentou muitos percalços; um belo registro desse processo é o documentário “Hellcife – Transformações: a cena metal no Recife pós-mangue”, de Daniela Maria Ferreira e seu marido Wilfred Gadêlha, também vocalista da banda oitentista Cruor. Não nos cabe dizer o porquê desse acontecido, isso é tarefa do público, apenas fazemos o som que nos parece interessante e tentamos criar uma nova cara para nós mesmos a cada lançamento, construindo assim uma identidade própria, fazemos nosso trabalho com Verdade e Amor.

Renato Batista - Atualmente rolou um curta e um relatório (patrocinado pela Fundarpe) chamado Hellcife-Transformações: a cena metal no Recife “pós-mangue”, você foi um dos entrevistados. Ainda espera-se do projeto um Documentário e talvez livro e CD. Qual a importância de um projeto como esse para uma cena de Metal como a nossa?

Magno Lima -
Fundamental e digna de aplausos e agradecimentos de todos que fazem o estilo aqui em Pernambuco. O aspecto histórico é o que fortalece um nicho artístico e quanto mais estudos e pesquisas sobre o estilo, mais força adquire o acervo cultural, criando a admiração mesmo dos que pessoalmente não gostam do estilo, como é o caso do jazz. Um agradecimento sincero mais uma vez aos realizadores Daniela Maria Ferreira e Wilfred Gadêlha

Renato Batista - A saída de Arthur e a entrada de André Lira mudaram a banda? Algo em relação à implantação da língua portuguesa nas músicas?

Magno Lima -
Toda mudança de integrante é uma mudança na sonoridade da banda, ainda mais no nosso caso que se trata de um trio, cada um tem responsabilidade imensa para enriquecer os companheiros e deixar o som coeso. Nada relacionado à incorporação do português nas músicas, a mudança teve caráter logístico de acordo com planejamentos a longo prazo.


Renato Batista - Depois da Demo Cangaço, Parabelo e Positivo, qual os próximos trabalhos da bandas que virão?

Magno Lima -
Estamos planejando o primeiro álbum e acreditamos que fará grande diferença na aceitação da banda em diferentes mídias e públicos, além de selar uma fase da banda que começou em 2009 e merece um registro full-length. Enviamos a proposta da gravação de um CD para o edital da Fundarpe em março, pois, não temos como bancar os custos de um álbum de forma independente. Esperamos para ainda esse ano o resultado.

Renato Batista - Agradeço pela entrevista! Deixem suas últimas considerações.

Magno Lima -
Muitíssimo agradecido pelo espaço cedido e parabéns pelo blog, vocês da imprensa é que fortalecem e dão crédito à cena, criando estímulo para a produção de qualidade das bandas. Agradecer a todos que escutam, lêem e comentam sobre nossas músicas. Prometemos continuar na busca de uma identidade própria para o Metal nordestino visando enriquecer a música brasileira.

Autoria: Renato Batista

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